Hoje me sinto ela, me vejo e entendo-me como ela. Faço parte de sua existência na Terra, dela fui feito, de sua matéria surgi. Da combinação da matéria dela e de meu pai embarquei aqui nesse corpo que agora mais do que sempre cultivo bem, alimento bem, procuro equilibrar. Nada é mais importante que meu corpo e equilibrio, a menos que não me importe a duração de minha jornada, e a mim importa. A tu?
A vivência ensina a fogo, ensina fundo e com dor. É preciso um bocado de desapego e coragem para aquele corpo frio não tocar. Acreditei a todo instante que minha mãe já havia ido, se em algum lugar estava naquele momento, certamente não naquela dura caixa de madeira. O caixão. Cai-chão. Nos falta o chão, nos falta a base, nos falta o que há de mais feminino e profunda fêmea, símbolo do amor e de tudo o que entendemos seio na vida, nos falta o colo da mulher mais amada, o colo da mãe.
Nem mais uma vez. São as chances de te olhar novamente nos olhos e dizer que te amo. Nem mais uma vez são as chances de te deitar no colo e deitar no colo teu. Nem mais uma vez minha pele na tua. Teu cheiro em mim e eu cheiro a ti. Só mais uma vez é tudo o que desejei quando vi teu corpo morto. E eis que tudo se resume a nada. O que há de mais urgente e importante, some. O que há de valor, some. O que há de pra hoje, já não mais é.
Na vez passada que te vi, te vi com pressa, te vi assim como quem diz: não me assusta com teu olhar, me deixa fingir de viver assim, quando criar coragem volto pra te beijar mãe. Tudo, qualquer coisa era mais importante. O tempo, dez minutos eram mais importantes, e parti, na última vez que nos vimos assim, carne e osso, pele e calor, parti correndo, sem olhar pra trás. Lembro agora como há segundo que quando desci a rua te ascenei pela janela, pela última vez assim matéria. Assim essa vida que vivo ainda. E a distância entre onde vivemos agora, hora é nada, hora é maior do que posso entender. Mas prendo-me com todas as forças à esta nenhuma distância. Fico com tua presença mãe. Sou-te.
Assim como és o que minha vó. Assim como infinitamente seremos um ao outro.
Nas memórias registradas na fotografia te conheci nova mulher. Nas cartas te conheci mais. Nos papéis, nas manias escondidas nas gavetas, te conheci Célia.
Te conheci também na minha própria memória. Quando nas águas de mar, de cachoeira, de lagoa, de chuva e no fogo, onde me curei, onde me confortei, me vieram as mais distântes lembranças, coisinhas bem escondidas, sorrisos, alegrias, dores também. Lembrei a todo instante que sou eu o que tu. Somos nós, eu e Marcelo o que tu. Somos-te. Valores, força, saúde, amor, somos-te mãe.
Que vida-mãe maravilhosa essa que me permite deixar-te ir sem lamentos, sem remorsos, sem arrependimentos. Leve-me-sinto, apaixonado por tudo o que fizeste.
Meus amigos queridos, meus irmãos, meu irmão, meu pai. Abraços, pequenos sinais de amor, pilares da minha vida. Como sou feliz por tê-los encontrado, por também nos amarmos. Por também entendermos que não há nada mais importante. Cultivemos o amor. É preciso semear essa nossa visão apaixonada da vida na Terra. É preciso ter coragem para questionar os costumes e apresentar à todos um jeito tão simples mas profundo de vivermos. Amo vocês.
E a todos os que ainda ão de assim sentir, serenidade e paz. Amor.



